Tertúlias Liberais

Quando os empresários vivem bem com os impostos

Manuel Pinheiro

A preparação do Orçamento de Estado suscita, como é bom numa democracia, um debate público muito alargado sobre as melhores opções para cada sector. É assim que temos os habituais pedidos de apoio, as reformas, os professores, a cultura, enfim, uma miríade de mãos estendidas que os governos de cada momento procuram conjugar melhor ou pior conforme as eleições estiverem ou não mais perto.

Uma das afirmações mais bizarras, e porém consistentes ano após ano, é a dos empresários que vivem bem com os impostos. Ou até, numa posição que só pode ser encarada a sorrir, dos empresários que propõem o aumento de impostos sobre outros empresários.

Uma breve pesquisa na net sobre notícias publicadas nas últimas semanas permite confirmar que os cervejeiros reclamam porque o vinho paga poucos impostos, os fabricantes de bebidas açucaradas querem que se aumente os impostos sobre as bebidas com mais açúcar, a associação do sector automóvel está agradada com o Governo e com a neutralidade fiscal. Já as gasolineiras o que pedem é estabilidade fiscal. Cito, do Dinheiro Vivo, para não me enganar: “Para nós, basicamente, é a questão da previsibilidade, é a questão de não estarmos constantemente a fazer alterações ao enquadramento fiscal”.

Portanto o que principalmente preocupa as gasolineiras não é o facto de mais de metade da sua facturação serem impostos que cobram aos cidadãos, mas sim a trabalheira de terem de andar a mudar os preços todos os dias.

Bem podem os dirigentes da confederações andar a pregar o desagravamento fiscal das empresas, bem podem os teóricos da gestão andar a pedir incentivos fiscais ao investimento: a verdade, preto no branco, é que as associações empresariais parecem viver bem com os impostos que temos e, pasme-se, até se alegram se aumentarem os impostos para os outros.

A verdade é que muito do associativismo empresarial português se sente melhor ao lado do poder do que afirmando opções estratégicas, qualquer que seja o governo do momento. Quando são as empresas a tolerar ou a defender o aumento da carga fiscal, algo está mal.

E isto, num contexto em que a carga fiscal sobre os Portugueses é unanimemente considerada elevada e em que o esforço fiscal dos Portugueses é claramente dos mais elevados da UE

Face a este cenário, é irónico constatar que o PCP, numa defesa directa dos seus interesses, se opõe a que os partidos paguem IMI sobre o seu imobiliário. O PCP é um significativo proprietário de imóveis.

Afinal quem é de direita e quem é de esquerda ?

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Centralista e liberal?

Manuel Pinheiro

Um dos mais interessantes debates que se tem gerado entre liberais é o de perceber se devemos ou não optar por um Estado mais descentralizado, seja este regionalizado ou municipalizado. Gente muito boa defende esta tese e socorre-se de ideias que, no papel, parecem boas. Dizem que o poder exercido mais perto das pessoas é mais racional e mais auditável ou que a afirmação de esferas de poder regionais ou municipais com o correspondente lançamento de impostos gerará uma saudável concorrência nacional: o cidadão do Fundão perceberia que paga mais impostos do que o de Setúbal e pressionaria a sua Câmara Municipal a baixá-los.

Devo dizer, com sinceridade, que sempre que ouço estes argumentos na voz dos meus amigos, fico convencido. Depois acordo e a coisa passa-me.

Ponto 1 – Eu não quero Estado regional, eu quero é menos Estado!

Vamos ao princípio: o que importa não é saber se o Estado é melhor gerido a partir de Lisboa ou de cada Concelho. O Estado desenvolve actividades muito díspares. Portanto, o que importa é perceber de que forma o Estado se deve organizar para melhor servir os cidadãos em cada uma das áreas de intervenção. Por exemplo, estamos todos de acordo que as Forças Armadas devem ser geridas a nível nacional, muito embora saibamos que defender a planície alentejana seja essencialmente diferente do que defender o mar dos Açores. Ninguém argumenta que devamos ter várias Forças Armadas financiadas pelas Regiões e ninguém defende sequer que devamos ter uma só Forças Armadas com comandos regionais autónomos. Não faltam motivos: desde logo, porque a tarefa militar hoje é altamente tecnológica e móvel, pelo que o País é facilmente coberto por uma força; depois, porque as Forças Armadas são agregadoras do País. E, sobretudo, porque não queremos ser a anedota da Europa. Portanto, aqui estamos arrumados.

Por mim, podemos também arrumar já a saúde e a educação. O que defendo para estes sectores não é que devamos ter N ministérios regionais e N-Mários Nogueiras a convocar greves. Parece-me muito bem que haja uma Administração Central. Numa primeira fase, escolas, universidades, hospitais e centros de saúde devem ter autonomia de gestão e, numa segunda fase, devem ser abertos à iniciativa privada. Num caso como no outro o Estado deve ser centralizado sim, deve estabelecer parâmetros, auditar a qualidade e garantir que os mais pobres não são excluídos do sistema. E só. O que me preocupa na saúde e na educação não é saber como está organizado o Estado mas sim duas coisas muito simples: se o País tem serviços de qualidade e se ninguém é excluído do acesso a estes por falta de meios.

A verdade é que, quem defende esta regionalização ou municipalização, lá no fundo o que defende é o Estado. Nem discuto aqui se é mais ou menos Estado. É o que hoje temos com uma gestão que se esperaria melhorzinha. Quem defende regionalizar, já desistiu de reclamar que haja menos Estado, já relaxa se ele for melhor gerido.

Ponto 2 – Um Estado melhor

O próprio argumento de que a tomada de decisão mais perto das pessoas é mais eficaz é profundamente ilusório. Eu não conheço o senhor Jeff Bezos de lado nenhum, não sei onde ele toma café, mas ando muito feliz com a sua decisão de criar a Amazon. Até tremo de pensar que pudesse haver uma Amazon só portuguesa com um administrador, tipo EDP, negociado entre o Estado e os accionistas e sempre de costas vergadas para apresentar o último livro do governante Galamba.

Não percebo como se argumenta que no sector privado há economias de escala mas no Estado é o oposto.

Se querem melhorar o Estado (e acho bem), mais urgente do que criar novos níveis é dar liberdade de gestão e responsabilidade por objectivos a quem o gere, para que possa tomar as melhores decisões à semelhança do que se faz no privado. O sistema de gestão de orçamentos e compras do Estado faz, hoje, com que o melhor gestor do mundo se veja obrigado a fazer péssima gestão. Tem de pedir licença às finanças de cada vez que compra uma resma de papel, licença que chega com meses de atraso e com orçamento para comprar só meia resma. Alguém tem dúvidas de que a CP, por exemplo, seria mil vezes melhor se, mesmo dentro do Estado, tivesse uma gestão profissional livre de influência política? E não era preciso criar CP’s regionais, pois não?

Ponto 3 – Fazer omeletes com rosa e laranja

E depois há o problema de quem iria receber estas competências. É que, quem faria tal reforma não seriam os meus amigos dos fóruns liberais mas sim o PS e o PSD, os partidos do Estado, do sistema, para os quais todos os problemas se resolvem com as políticas públicas. Já agora, duas perguntas: quando o ensino básico passou para as câmaras, quantos departamentos em Lisboa fecharam? E quando as Lojas do Cidadão concentraram o atendimento, quantos antigos balcões fecharam? O Estado dificilmente se reforma, só é capaz de crescer.

O sonho de todos os níveis da governação é serem independentes. Está-lhes no sangue. O governante nacional preocupa-se com o conceito de “independência”, mesmo que isso leve o País apagar alguns bens tolamente caros para “proteger os sectores estratégicos”; todo o autarca quer que o seu município tenha a sua rádio, e TV local, a piscina de água aquecida, os autocarros da Câmara, tudo. E todo o Presidente de Junta quer um balcão da Caixa, um posto dos CTT, um pavilhão gimnodesportivo e um campo de futebol iluminado. Estes centros de poder, que são acompanhados de orçamentos generosos, têm uma visão do centro para a periferia. Desengane-se quem acha que o Porto é menos centralista do que Lisboa ou que Guimarães é ainda menos do que o Porto. Todos os são: a única diferença é que Lisboa anda há 850 anos a apanhar porrada e aprendeu a moderar-se. Não espanta, por isso, que haja concelhos lado a lado que duplicam infraestruturas subaproveitadas (às vezes a centenas de metros umas das outras) mas sempre com o argumento de que “o nosso Concelho não pode deixar de estar equipado”. A verdade é que pode. Pode e deve. Em tantos casos, tinha sido mais barato ter infraestruturas supraconcelhias, apoiadas por uma boa rede de transportes. Quer um bom exemplo à vista de todos? As comarcas nas grandes áreas urbanas. Dentro da grande Lisboa ou Porto faz muito mais sentido que os tribunais sejam posicionados em áreas de bom acesso de transporte público e estacionamento, com custos baixos por m2 do que obrigatoriamente um por Concelho e logo bem no centro. E, porém, algum autarca perderia a sua comarca? As pessoas percorrem centenas de km para ver um jogo de futebol mas não fariam 10 km para ir ao tribunal no Concelho ao lado.

A haver uma reforma no sentido de dar às Câmaras mais poderes, nomeadamente, o de lançar impostos, os Concelhos tornar-se-iam ainda mais centros de poder fechado, com sede de autossuficiência e alimentando cliques locais que os perpetuam: a rádio local, o jornal, a net tv (quantas net-tv’s há neste País alimentadas pelas Câmaras?).

Breve passagem pelo exemplo espanhol, tantas vezes citado. Desde logo, há um contexto histórico incomparável com o nosso. Depois, veja os vícios das autonomias espanholas: geraram bancos regionais, as Caixas, que controlaram até rebentar tudo levando o contribuinte na enxurrada, criaram redes de poder locais totalmente subsidiadas e gastam à tripa forra em projectos de afirmação (por exemplo, com gabinetes das regiões em Bruxelas e em alguns países fora da UE) convencidos de que são “uma espécie de” governos. E quantos departamentos fecharam em Madrid com a criação das regiões?

Ponto 4 – E então?

Comecemos por serenar os ânimos. O gráfico anexo (Pordata) mostra como nas últimas décadas, diga-se em abono da verdade desde o 25 de Abril, as assimetrias regionais têm diminuído. E depois há um problema fora deste que é o da demografia, que afecta o País todo. E têm diminuído com o Estado que temos.

Não subscrevo as soluções do costume que partem sempre por colocar o Estado no Interior (os tais balcões dos CTT, da Caixa… ). O que o Interior precisa é de actividade económica, que gera emprego, que gera necessidade de serviços públicos e não o oposto. O que interessa não é enviar dinheiro público para o Interior mas sim, precisamente, o oposto: tirar do Interior menos dinheiro público, na absoluta certeza de que, ficando com mais para si, quem vive no Interior saberá melhor do que ninguém como investir.

Proponho, pois, que ao nível das NUT II (a divisão nacional em regiões) haja impostos significativos que sejam modulados por PIB per capita. Refiro aqui um IRS, um IRC, um imposto sobre os combustíveis e o IVA. Como sabemos, a brutal carga fiscal que suportamos é um entrave ao desenvolvimento. Os próprios partidos políticos sabem isso, isentando-se de IVA e de IMI, como é público.

Faz, pois, todo o sentido que as regiões do País menos desenvolvidas tenham uma carga fiscal mais ligeira libertando, assim, recursos para que possam investir mais e captar investimento externo.

E tudo isto sem ser necessário criar gabinetes, assessores, instalações e motoristas.

 

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Comentário de Carlos Guimarães Pinto à Tertúlia #6

Carlos Guimarães Pinto

Presidente da Iniciativa Liberal

Como disseram os caros amigos que escreveram antes de mim, fiquei com a sensação de que as respostas dos convidados não tocaram nos pontos essenciais da minha intervenção. Possivelmente por os considerarem irrelevantes, ou mais provavelmente pela minha incapacidade de os expor de forma clara (isto de ser gago, apesar de criar empatia com as mulheres, tem as suas desvantagens). Pensei em falar depois porque haveria muito a dizer, mas era importante dar lugar a outros intervenientes na tertúlia. Eu sei que a minha luta em defesa de uma descentralização focada na representatividade e responsabilização do poder local está perdida, mas assim é que tem piada.

Assim sendo, em vez da reportagem à qual eu teria pouco a acrescentar ao que já foi dito, deixo aqui aquilo que teria dito tivesse havido tempo para tal (por uma vez sem exemplo, falarei por pontos, que horror):

  • Ao contrário do que disse o meu amigo Manuel Pinheiro, não é verdade que em Espanha a existência de regiões administrativas não seja factor de redução do peso do governo central. Em Espanha o estado tem mais ou menos o mesmo peso na economia que em Portugal, mas segundo a OCDE o poder central em Espanha tem metade (metade!) do peso do nosso poder central.
  • A Espanha é um excelente exemplo por nos ser geografica e culturalmente próxima, permitindo comparações de performance económica sem ter em conta outros factores. E a comparação é clara. A Galiza, cultural e geograficamente, próxima da região norte tem um PIB per capita 30% superior. Como é que dois povos geográfica e culturalmente tão semelhantes têm uma diferença tão grande de bem estar económico? A diferença é clara: a Galiza tem autonomia política e representatividade. O Norte de Portugal não.
  • O meu comentário sobre os Açores e a Madeira não estava relacionado com o seu modelo económico, mas com representação política. O que faz com que os Açores e, principalmente, a Madeira (que é mais rica do que grande parte das regiões do continente) sejam receptores líquidos de fundos públicos é terem efectiva representação política. Representação essa que falta a todas as outras regiões, excepto Lisboa cujos representantes se sentam no governo central. Não é coincidência que sejam as regiões com representação política que melhor defendem os seus interesses. Se todas as regiões a tivessem de forma igual, haveria mais equilíbrio e evitar-se-iam as desigualdades na distribuição de dinheiros públicos que existem hoje.
  • Ao contrário do que o Professor Daniel Bessa disse, a diferença entre Sócrates e o presidente da Câmara de Pedrogão não é só de acesso a fundos. Há outra diferença importante: as questões relacionadas com Sócrates ainda hoje, dez anos depois, se estão a investigar, apesar do pequeno exército de jornalistas empenhados nisso. Os problemas da Câmara Municipal de Pedrogão descobriram-se passados 6 meses. Bastou uma jornalista perguntar aos vizinhos. Esta é uma diferença importante e o grande motivo pelo qual existe a percepção de que o poder local é corrupto. Não existe mais corrupção: ela é mais visível. Fossem os custos da corrupção pagos directamente pelos contribuintes locais e certamente o controlo seria diferente.
  • Se a descentralização não passa pela representatividade política, passa por quê? Como é que se criarão os incentivos de longo prazo para não haver desvio de fundos e investimento de umas regiões para outras?
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Municipalismo

Carlos Novais

Presidente da Direcção da Associação Partido Libertário

Os municípios como que precedem a nacionalidade e por causa disso mesmo os Forais reconheciam o âmbito concreto da soberania local, espécie de federalismo interno. As antigas liberdades de que falou Herculano.

Perdeu-se mais tarde com o absolutismo Real e depois com o absolutismo Parlamentar concentrado-se inevitavelmente o poder na capital sendo que de ambas foi também Herculano crítico em especial da ramificação de diretórios partidários que passou a constituir o poder local.

No tempo presente é preciso recuperar a ideia de um certo federalismo interno: onde possível concorrência fiscal, capacidade de dirigir despesa (aumentar ou diminuir) e regular aspectos sociais.

Por exemplo, num cenário de descriminalização do comércio de drogas leves, cabe a cada município regular, não regular de todo ou até proibir a sua venda. Do ponto de vista libertário, o meu pelo menos, não cabe a um poder central libertário proibir proibir.

Isto sem esquecer um papel acrescido que as freguesias podem ter em certas matérias (algo entre: com capacidade de licenciamento ou veto de).

Só uma efectiva autonomia local poderá permitir que alguns municípios sejam mais liberais mesmo que o poder central seja mais socialista (de esquerda ou direita).

Claro que numa perspectiva mais radical só acabando com que são os grandes programas de dirigismo nacional é que as grandes escolhas podem passar a ser locais e sobretudo individuais.

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Comentário de Rosário Coimbra à Tertúlia #6

Rosário Coimbra

Tertúlia #6

A tertúlia da passada sexta-feira foi, para mim, uma das mais bem sucedidas de todas a que assisti. A sala estava à pinha, o que diz muito do prestígio que a Oficina, passo a passo e sustentadamente, vai conquistando no espaço público (assim se regionaliza…). Sem demérito para os restantes, destaco dois intervenientes que, postos a oradores, fariam outra estimulante tertúlia: o Carlos Guimarães Pinto, pelo vanguardismo limpo, inteligente e sensato da sua intervenção, lamentavelmente irrelevada pelos oradores; e o Manuel Pinheiro, auto-confessado comunista com cuja opinião sobre a regionalização discordo mas a quem reconheço, e admiro, uma (incomum) capacidade argumentativa consistente, racional e reflectida – aquela que com que se desenrolam conversas (tertúlias) galvanizadoras. Sentada ao lado do Paulo Alcarva, lamentei que para o Camilo Lourenço a regionalização seja uma questão geográfica e não um modelo de governação. Não ouvi todos os “questionantes” (a Margarida Bentes Penedo, o Luiz Rocha e o António Xavier); assuntos inadiáveis obrigaram-me a duas deslocações ao jardim, onde tertuliei com o Helder Ferreira. Grande moderação do Alexandre Mota, primorosa reportagem do Telmo Azevedo Fernandes, inexcedível podcast do Vitor Cunha, que não ouvi mas aposto o que quiserem que está um brinquinho. Termino com a sugestão que já faço há décadas: convidar oradores mais conflitantes – isto é, transformar a coisa num Prós e Contras.

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Comentário de José Meireles Graça à Tertúlia #6

José Meireles Graça

Tertúlia #6

O Luiz Rocha, o Gastão Taveira, outros ainda, relataram o que se passou na tertúlia da última sexta-feira na Casa do Vinho Verde, os dois primeiros em textos aqui na Oficina. De resto, quem tiver curiosidade pode ouvir a gravação.
Não vou abundar no que os dois escreveram porque ambos foram fiéis intérpretes. Limito-me a consignar umas notas pessoais:
1. A sala estava muito bem composta, como habitualmente, mas notei a falta de algumas caras. Não vou elencar nomes, que não sou desses, mas a representação da capital, mesmo que a Margarida Bentes Penedo valha, como vale, por meia dúzia de lisboetas de prestígio, poderia ser mais gordinha. Isto deve-se, creio, a razões de índole geográfica: a distância entre Lisboa e o Porto é o dobro da mesma distância entre o Porto e Lisboa, o que explica a dificuldade de os alfacinhas se deslocarem ao Norte.
2. O muitíssimo bem elaborado discurso do Carlos Guimarães Pinto, em favor da regionalização, não encontrou grande adesão, e os dois conferencistas arrumaram-no sem grandes considerandos nem detalhe, limitando-se a chamar a atenção para a origem pública dos fundos que suportaram o sucesso dos casos de sucesso citados, salvo erro as duas regiões autónomas. Suponho que nem Daniel Bessa nem Camilo Lourenço conhecem a peça, senão abstinham-se de o despachar à la va vite. O segundo, aliás, não tinha nada a perder em pôr uma surdina na suficiência, mesmo que geralmente elabore dentro da razão. Como não sou adepto da regionalização mas odeio o centralismo lisboeta, que é um cancro que corrói o país; e como a tese de Guimarães Pinto, que em quase nenhum ponto subscrevo, merece muito mais do que ser enterrada sumariamente, fiz sinal ao moderador, que aliás dirigiu os trabalhos com discrição e competência, para me fazer ouvir, uma actividade que em geral encaro com egotista satisfação. Mas entretanto outros cascaram naquele meu colega espectador, e não quis acrescentar nada antes de o visado se defender. Coisa que ele não se deu ao trabalho de fazer, talvez porque no dia seguinte ia tomar posse do lugar que ganhou de presidente da Iniciativa Liberal, e ter portanto outros gatos para açoitar.
3. Mulheres havia muitas, incluindo uma deputada, que aliás primou pela discrição. E – caso singular – as que conheço não cabem nas aguerridas hostes do feminismo militante que por estes dias varre o país a golpes de demagogia e activismo. É um conforto: o liberalismo não é um assunto de gajos, é matéria que interessa equanimemente a homens e mulheres.
4. Antes da tertúlia houve jantar, e depois paleio no jardim. Constatei mais uma vez o que de mais surpreendente têm estes encontros: gente que tem ideias com frequência divergentes, dentro de um quadro geral de repúdio da excessiva importância do Estado nas nossas vidas e revolta contra o esbulho fiscal a que a nossa sociedade, como outras, está exposta, mas sempre guardando respeito mútuo, contenção, e não raramente simpatia.
Isto para dizer que estes encontros valem a pena: conhecem-se pessoas que quase nunca conferem exactamente com as fotografias dos perfis das redes sociais, quando as têm; aprende-se sempre alguma coisa, e não apenas porque os conferencistas costumam ter qualidade; e conclui-se – eu concluo – que a direita democrática, com todas as suas capelas, não tem a mania da superioridade moral nem integra nas suas fileiras quem tenha como propósito político inventar mais maneiras de dependurar no Estado novas resmas de dependentes.

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Comentário de Luiz Rocha à Tertúlia #6

Luiz Rocha

Tertúlia #6

Esta Oficina nortista, centrista, sulista, insularista, elitista e liberal, ganhou decididamente o hábito de organizar jantares seguidos de debate. Não sei se pela qualidade do repasto, pela vetustez do local que vem sendo amavelmente cedido pelo Manuel, um rapaz que tem a distinta lata de se assumir (coerentemente) centralista e comunista, se pelo interesse (?) dos temas propostos, certo é que, seja para comer ou para discutir, tem havido sempre casa cheia.

O último evento não foi excepção. Realizado na passada 6ª feira, numa noite de bonança quase estival (quiçá prenunciadora da tempestade de Sábado), convidativa para tudo menos para discutir a “questão La Palissiana” do estado em que nos deixa o Orçamento, o que diz muito da falta de gosto dos liberais. E também da sua enorme resiliência (adoro este jargão do economês), terá pensado o Daniel Bessa quando manifestou o seu espanto na saudação inicial, ao constatar ter sala cheia. É isso mesmo, em 2018 os liberais já conseguem encher uma sala em Portugal. Seria por estarem presentes 2 líderes (um já efectivo, outro então ainda presumível) de 2 neo-partidos que se afirmam neo-ultra-supra-hiper-mais 50 adjectivos hiperbólicos-liberais, que arrastaram as suas “aguerridas bases”, como defendiam vários crentes? Ou relevaria sobretudo o mediatismo dos convidados, como contrapunham prosaicamente alguns irritantes incréus?

Enfim, fosse pela aridez do tema ou pela argúcia do moderador Alexandre, que soube radicalmente agulhar para áreas mais estimulantes, pouco se falou do orçamento. Também não havia necessidade, que o Daniel resolveu a questão em 3 escassos minutos numa brilhante síntese que até meteu alguma história do intervencionismo estatal: começámos por pagar impostos para custear as funções de soberania (bons tempos!), depois houve que financiar as políticas desenvolvimentistas (o Estado a meter-se na economia) e agora pesam sobretudo as funções sociais (a descarada “compra de votos”), cujo contínuo aumento monopoliza hoje as discussões de mercearia de cada orçamento. Eternos perdedores, os pagadores líquidos de impostos (muito bem representados nos tertulianos presentes), sempre maltratados, já em fase minguante e que em cada ano sabem apenas que irão pagar mais. E com mais uma ou outra diatribe do Camilo, ficámos conversados quanto ao orçamento: deixa-nos sempre em estado deplorável.

A animação veio depois quando o Alexandre, entre um palestrante dragão e outro lampião, meteu obviamente a Regionalização ao barulho, na esperança de criar algum frisson entre eles:
– Imagino que seja uma temática em que estejam em desacordo…
– Não, não estamos! – cortou logo cerce o Daniel, fazendo gala de imperdoável traição às cores que diz apoiar.

E daí passaram ambos os palestrantes para a intensa e habitual zurzidela aos caciques locais e pela rejeição liminar de qualquer novo escalão intermédio de poder, coisa que iria exponenciar as desventuras e desgraças da Pátria. Regionalização jamais, descentralização sempre!

E a sala veio abaixo. O Gastão foi o 1º a insurgir-se, algo chocado pela imprevista dupla de centralistas pesos-pesados que tinha pela frente e tratou de realçar as virtudes da proximidade, a retirada de poderes ao centro a favor da periferia, a lógica virtuosa (e utópica?) que deve presidir a um processo de regionalização. Mas as intervenções de fundo vieram dos 2 neo-líderes partidários presentes, dir-se-ia que já a afinarem a tarimba para as exigentes campanhas que se aproximam:

– Mais tribunícia a do Carlos Guimarães Pinto, centrada no mais fácil escrutínio a nível local, no reduzido peso da dívida das autarquias, no fosso crescente entre a Lisboa cosmopolita e competitiva e o restante País “romenizado”, no sucesso dos Açores e da Madeira, este logo menorizado pelo Daniel e pelo Camilo (foi tudo dívida!);

– Mais “revolucionária” a do Carlos Novais, um municipalista de longa data sempre cioso do direito de secessão, com a sua estratégia de baixar impostos via “privatização radical da despesa” (sic), incluindo nesta a saúde e a educação e terminando com uma proposta “moderada” com que a maioria dos presentes sonharia, privatizar a despesa em 50% para baixar os impostos em igual medida.

Pelo meio, algumas intervenções mais ou menos “centralistas”, mas pontilhadas de bom senso:

– A da Margarida Bentes Penedo, a questionar a racionalidade de descentralizar com uma pulverização administrativa (308 concelhos) falha de massa crítica e a insurgir-se contra o construtivismo da “reforma de mentalidades”, com acusação implícita e pertinente a muito regionalista do burgo;

– A do Manuel Pinheiro, nosso prezado anfitrião “comunista”, denunciando a lógica perversa e pouco ou nada estruturante de fundos europeus, que se esfumam em organismos do Estado ou em empresas com ligação umbilical;

– O António Xavier, este nada centralista e a chamar a atenção para a miríade de PMEs sem capital mas lideradas por quem assume riscos e cria emprego, em contraponto às empresas do regime, ancoradas no Estado e com capacidade para sugar a massa cinzenta daquelas. Permitiu ao Camilo passar da Altice e do Fundão para a sua “heroína de Baião”, que exporta 95% sem subsídios.

E pronto, ficou provado que a Regionalização é tema saudavelmente fracturante e que justifica mais debates. Mas para dar mais “pica” Telmo, da próxima tens de convidar um socialista, daqueles mais empedernidos.

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Comentário de Gastão Taveira à Tertúlia #6

Gastão Taveira

Tertúlia #6

Breves notas pessoais, de um participante activo:

O debate foi muito interessante e animado. Para além da qualidade dos oradores, é de registar a participação activa dos assistente e o nível das intervenções. Ficámos todos com a sensação que facilmente o debate se poderia prolongar por mais umas horas, sem que ninguém perdesse o interesse

Houve uma grande coincidência dos intervenientes (oradores e assistência) em torno do enviesamento do quadro orçamental.
Algumas ideias chave.
O OE discute como distribuir umas franjas da despesa, normalmente as que aumentam. São essas que são objecto de discussão entre os partidos.
Não há respeito por quem alimenta a máquina. Os contribuintes são esmifrados. Muitos já não querem saber de como é feita a distribuição, mas apenas de quanto vão ter de pagar.
No orçamento não se fala das empresas, que são quem cria emprego e faz crescer a economia. A este propósito, registo a intervenção de António Xavier, sobre as PMEs. Ninguém fala delas, apenas das grandes. Mas são estas onde existe iniciativa, mas para estas não existem apoios.
Foi referido por muitos que era importante mudar as consciências. E neste ponto pareceu-me ter havido um grande consenso. Mas, como sempre, ninguém diz como fazer para o conseguir. Nisto estou com a Margarida Penedo, que na sua intervenção, disse “não quero que venha ninguém a querer mudar-me a consciência”. Na minha opinião, creio que as consciências reagem aos estímulos e incentivos que recebem. Só se mudam, mudando estes.

Outro tema, que foi lançado à discussão foi a Regionalização.
Revelou-se um tema fracturante, como bem referiu um dos intervenientes. Registaram-se opiniões muito discordantes. Parece-me que há muitas ideias estabelecidas e preconceitos. Não é possível discutir o tema assim, sem análises estruturadas, que permitam partir de uma base factual comum.
Quanto à Descentralização, parece haver maior consenso.
Concordo com o Luiz Rocha que concluiu da seguinte forma: Descentralização é a palavra mágica / panaceia dos que são contra a regionalização. Nunca acontecerá.

Uma pequena nota crítica a Camilo Lourenço, espero que não me leve a mal. No final, em resposta à intervenção de António Xavier, teve uma excelente declaração, em que disse adorar as PMEs e contou um caso interessante de uma empresária têxtil. Criticou mesmo os jornalistas por falarem sempre das mesmas grandes empresas e esquecerem as pequenas.
No entanto, na intervenção inicial, incorreu nesse mesmo erro. Os exemplos que deu foram a Univ. Nova e a Altice. Mesmo o exemplo do interior, Altice e Altran, têm a ver com o investimento da Altice num data centre, quando era “a empresa do regime”, PT.
Isto vindo de um dos jornalistas mais activos na defesa da liberdade económica, é sintomático do nosso jornalismo.

Algumas pequenas frases curiosas, mas importantes, memes, que captei:
“A grande maioria dos portugueses olha para o Estado, como a minha mãe, que queria ser minha empregada para ter direito à pensão.”
“A propósito da recente nomeação na ERSE: Para os amigos tudo. Para os inimigos nada. Para os indiferentes, a lei.”
“A diferença entre o Presidente da Câmara de Pedrógão e o Sócrates, é que o Presidente só tinha o Fundo de Solidariedade e o Sócrates tinha a Caixa.
“Nós só podemos distribuir o que criamos. Nós neste momento, não criamos. Does it ring a bell?”
“Designa-se sector privado aquele que é controlado pelo governo e sector público aquele que é controlado pelos sindicatos” (Carlos Novais, citando J.M.Moreira).

Para concluir, é de registar que foi um ambiente excelente. Pessoas inteligentes, que pensam nos assuntos, e querem dar o seu contributo ao debate, sem se porem em “bicos de pé”. Dispostas a ouvir os outros e a debater.
Foi um jantar e serão em que muitos amigos virtuais deixaram de o ser. Foi curioso vermos, ao vivo, muitos com quem debatemos nas redes sociais e sentir que já os conhecemos – pelo menos conhecemos as ideias deles, o que nem sempre acontece com pessoas com que nos cruzamos todos os dias.
Noite de boa gente, boa conversa e boa disposição.
Parabéns à Oficina da Liberdade por mais um evento muito bem conseguido.
Obrigado, Alexandre, Telmo, Vítor, Helder e Manuel, anfitrião inexcedível.

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O Orçamento em que Estado nos deixa?

Tertúlia número: 6
Data: 12 de Outubro de 2018
Tema: O Orçamento em que Estado nos deixa?
Intervenientes: Daniel Bessa, Camilo Lourenço
Moderador: Alexandre Mota
Local: Casa do Vinho Verde, Porto

A aprovação do Orçamento de Estado trará uma renovada Geringonça ou uma recatada maioria liderada por António Costa? Faz pois sentido perguntar: o Orçamento em que Estado nos deixa? A Oficina da Liberdade convidou Daniel Bessa e Camilo Lourenço para um debate moderado por Alexandre Mota. O impacto das políticas socialistas esteve em discussão. A pedido de um dos intervenientes, o episódio do podcast inclui apenas a participação da audiência.

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